segunda-feira, 24 de junho de 2019

Hoje

Hoje eu dei-te o meu dia, na esplanada afrontando o olhar dos outros
por motivos tão escassos. É a primeira oportunidade para uma nova estação, a natureza conspira no cimento à nossa volta. Mas eu acredito que toda a mudança venha apenas pelo fim de qualquer coisa e tu estás imóvel nessa cadeira, parece que nunca tiveste um princípio.

Onde estão agora as tuas razões, o que fizeste com a tua juventude? Não esperes que os pássaros te castiguem por perderes o dia e sufocares de noite. Eu não te posso salvar da tua angústia, baralhei os sinais por baixo de cada nome e escolhi as ruas à sorte. E tu não me podes obrigar a pensar de outra maneira, pobre de ti com as mãos encolhidas sobre o tampo da mesa. Nos dias de sol a tua sombra seria cruel para mim. E como eu te mentiria.


Rui Pires Cabral
música antológica & onze cidades
Coleção Forma, Editorial Presença

sexta-feira, 29 de março de 2019

quinta-feira, 28 de março de 2019

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Nada é duradouro

"Viste que nada era duradouro
desde muito pequeno.
Que uma flor arroga de aroma
  abre e brilha
 e cai depois no jardim.
 E ainda que outras flores logo apareçam
 - muito semelhantes - nenhuma delas
 será a flor que despertou
 os teus sentidos: aquela flor. 
Pessoas,  meses , chuvas e ânsias
  Fugiram de ti em bicos de pés 
para não te magoarem.
 Mas tu aprendeste com uma simples
   flor  o amor ao que perece e a ferida do que já morreu."
 José Agustín Goytisolo


Tornar habitável o deserto

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. 0lha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
António Ramos Rosa in A nuvem sobre a página.
Lisboa: Dom Quixote, 1978.
Imagem de Maria João Alves

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Eco

Consigo ainda ver-te: eco
que pode alcançar-se pela palpação
das palavras, na aresta do Adeus.
Teu rosto amedronta-se docemente,
quando de repente.
se acende uma luz de lâmpada em mim,
no lugar onde, com a maior dor,
se diz Nunca mais.
No ar , mora a tua raíz, aí,
no ar
escavamos um túmulo no ar
para não se estar lá apertado
lá fora ao pé dos outros mundos.

( se eu fosse como tu. Se tu fosses como eu
Não nos mantivemos nós de pé,
Juntos, sob um mesmo vento contrário?

Somos estrangeiros.)


Maurice Blanchot,  in
O último a falar

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Ouve

OUVE bem o que faz
A pólvora explodindo.

Ouve bem o que faz

O frágil violino.

Poesias de Guillevic,
Editora Ulisseia

domingo, 10 de fevereiro de 2019


Maria Teresa Horta, As Palavras do Corpo
(Antologia de Poesia Erótica)
Publicações Dom Quixote, 2012

domingo, 2 de dezembro de 2018

Sombras Rosas Sombras

Sob um céu estranho
sombras rosas
sombras
numa terra estranha
entre rosas e sombras
numa água estranha
a minha sombra

Ingeborg Bachmann
O Tempo Aprazado

Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Judite Berkemeier.
Assírio & Alvim Editores, 1992.




sábado, 1 de dezembro de 2018

you are only just beginning





Uma canção embalada pela perda


O que esperar de um indivíduo que perdeu o filho adolescente de 15 anos ao cair de um penhasco por uma má trip de LSD? Celebrar-se-ia hoje o seu aniversário. A vida é um espinho cravado na garganta. Nick Cave sabe disso como poucos. O’ Children faz parte do álbum que estava a gravar durante o trágico acontecimento. Apesar de o trabalho ter sido influenciado por aquilo que aconteceu, Nick Cave afirmou "ter medo de dizer algumas coisas" sobre o filho, ainda que "gostasse de as dizer". A dor é de tal ordem que “não há espaço para o luxo da criação”, disse. Quanto à poética da canção, não existem respostas prontas, não existem gavetas arrumadas às quais possamos facilmente recorrer, não há bula de medicamento, não existe uma maneira tranquila de ouvir isto. Não é uma canção para se ouvir no dia-a-dia. De qualquer modo, é impossível passar incólume ao seu convite, que repete com a convicção de quem não tem outra alternativa: “We’re older now, the light is dim and you are only just beginning” (“estamos mais velhos agora, a luz está fraca e tu estás apenas a começar). Por isso nos diz: “O’ children/ Lift up your voice, lift up your voice” (crianças ergam a vossa voz). É a dor de Orfeu por causar a morte de Eurídice pela sua própria mão.

Sonhos e corações partidos

Mestres estabelecidos da contenção e emoção humana poética, estes tipos, com “How he entered”, conseguem criar uma das melhores canções da sua carreira. Se há uma sonoridade Tindersticks, por assim dizer, “clássica”, “familiar”, então “How He Entered”, incorpora essa sonoridade. Esta peça visual apresenta a enigmática cabeça de burro e pertence ao seu muito aclamado álbum "The Waiting Room". Mais poética que musical, “How He Entered”é uma daquelas canções que cativa mais que nenhuma outra dentro daquilo que se vai fazendo no mainstream. É música que requer várias audições para a entender completamente. O xilofone suave e melódico e a guitarra completam cada enigmático e deslumbrante verso. O amigo Stuart Staples fala-nos de sonhos, corações partidos, de desespero, evocando um mundo de romance.

(Ricardo Gomes)